sábado, 27 de outubro de 2012

Reminiscências

         Nasci em Manaus, que aos meus olhos é a cidade mais linda do mundo, exatamente às 22h30, do dia 31 de outubro de 1924. Uma sexta-feira. E por ter sido nesse dia da semana, com certeza, já vim predestinada a ser alegre, festeira, comunicativa e com muita vontade de aproveitar o lado bom da vida.
Cheguei ao mundo na casa dos meus queridos pais, Emílio Freire Mendes dos Reis e Florinda Augusta de Albuquerque Viégas - que depois de casada acrescentou o Freire Mendes dos Reis -, ambos portugueses que na época tinham, respectivamente, 41 e 36 anos. Eles estavam felizes da vida por ganharem mais uma menina, a quarta, do total de cinco filhos.
         Morávamos na Rua Dr. Jorge de Moraes, nº 3, em Manaus, que anos depois mudou de nome e número, passando a se chamar Rua Rui Barbosa, nº 31. A casa, para mim tão querida, ainda existe, porém foi modificada internamente ao longo dos anos.
         Naqueles tempos, oitenta e tantos anos atrás, não era costume a mulher ter filhos no hospital. Penso que até nem existiam maternidades propriamente ditas. Os partos eram feitos em casa e, quase sempre, por parteiras, a maioria delas verdadeiras curiosas que ajudavam as crianças a virem ao mundo. Quando o parto era difícil, as mães mais humildes iam à Santa Casa de Misericórdia e as protegidas da sorte para a Beneficente Portuguesa, em busca de um atendimento mais eficiente.
          Meu pai, Emílio, nasceu no dia 21 de fevereiro de 1883, na pequena Vila de Loriga, encravada em um vale da Serra da Estrela, em Portugal, no seio de uma família abastada que pelo lado materno tem o título de nobreza (Freire).
Ele foi o único filho varão do casal. Seu pai chamava-se Emílio Mendes dos Reis e era um dos dois ‘donos’ da Vila. Era proprietário de várias fábricas de lã, até hoje existentes, cuja matéria-prima natural vinha de seu numeroso rebanho de ovinos.
Era um homem muito bonito, culto, elegante, educado, poliglota, viajado e, principalmente, muito conquistador, tanto que fora do matrimônio teve ‘apenas’ 48 filhos, a quem dava assistência, mas não o seu sobrenome.
Minha avó paterna se chamava Maria Hermínia Freire Mendes dos Reis e era prima de primeiro grau do meu avô. Ela teve educação esmerada e a perfeita instrução que se dava às mulheres naquela época, isto é, falava francês, pintava, bordava e tocava piano. Seu desejo era ser religiosa, mas precisou mudá-lo para obedecer ao pai que resolveu unir as fortunas dele e do irmão, casando os dois primos. A boda foi realizada e dessa união nasceram seis filhos. Creio que entre eles nunca existiu o amor de verdade.
O meu pai era o filho caçula do casal e, por isso foi muito paparicado. Era carinhosamente chamado de senhor Emilinho. Até os 11 anos, ele, juntamente com suas irmãs, estudou em casa com professores que vinham da capital e de fora do país, os quais passavam a residir com a família. Aprenderam de tudo, inclusive boas maneiras, música, ginástica, dança, pintura e francês, que era o idioma predominante na época.
Aos 12 anos meu pai passou a estudar em um colégio interno, em Lisboa, mas só se conformou em morar longe quando conseguiu, por meio do meu avô, licença do colégio para que seu cachorro de estimação o acompanhasse.
O Sr Emilinho estava destinado a assumir no futuro os negócios da família. Porém, isso não estava escrito e seu caminho foi outro. Aos 22 anos conheceu minha mãe e os planos da família precisaram ser modificados.
Minha mãe, Florinda Augusta de Albuquerque Viégas, nasceu em Lisboa, a encantadora capital de Portugal, em 3 de novembro de 1888. Aos 2 anos de idade viajou para o Brasil com seus pais, onde morou até os 14 anos na cidade de São Paulo. Ela estudou por oito anos no colégio São José que era dirigido por religiosas franco-italianas. Esse colégio, se não me engano, até hoje existe no bairro da Glória.
Lembro que em janeiro de 1946 minha mãe teve a felicidade de voltar a visitar o seu antigo colégio, claro que totalmente diferente em todos os sentidos, mas ainda dirigido pela mesma congregação religiosa. A emoção foi imensa, especialmente porque também encontrou uma antiga mestra (não me recordo o nome dela), já bem idosa de aparência saudável que andava e falava bem, mesmo com lapsos de memória.
Durante o reencontro, as duas se abraçaram e essa foi uma das poucas vezes que eu vi a mamãe chorar. Foi um momento fugaz, porém inesquecível. As freiras francesas e italianas professoras da mamãe proporcionaram-lhe sólidos conhecimentos que acrescidos a uma grande inteligência, fabulosa memória, gosto ininterrupto e amor profundo pela boa leitura, transformaram-se em uma enorme cultura que persistiu até os 90 anos. Até seus últimos dias, conseguia, com muito carinho, lembrar e ler em francês e italiano, idiomas aprendidos na infância e adolescência.
Meu avô materno chamava-se José Augusto de Albuquerque Viégas. Era Português e tinha um tipo fino, louro de olhos bem azuis. Eu não sei exatamente quando e em que cidade nasceu, mas a mamãe contava que ele era bem mais velho que a vovó, gênio calmo e ponderado. Creio que nem de longe teve as aventuras do meu galante avô paterno e, se deu algumas “fugidas”, foram rápidas e sem conseqüências, porque a vovó não hesitava em fazê-lo voltar ao bom caminho.
Os meus avôs maternos foram emigrantes autênticos, porque vieram para o ‘novo mundo’ em busca de fortuna. Minha mãe contava que seu pai havia tomado essa decisão, porque se sentira lesado por um irmão e sua própria mãe na divisão da herança de seu pai e, como não queria represálias, especialmente com sua genitora, largou tudo e veio para o Brasil. Em São Paulo, ele trabalhou na administração da estrada de ferro.
         Minha avó materna chamava-se Maria de Jesus Ferreira Viégas, nasceu no dia no dia 1 de janeiro de 1864, em Portugal (não sei em que cidade). Ela era alta e forte e foi a única avó que tive a sorte de conhecer.
Quando os meus avôs maternos foram para São Paulo, em 1890, trouxeram a minha mãe Florinda com menos de 2 anos de idade e deixaram, em Portugal, a outra filha, Deolinda Augusta, que havia nascido em 6 de janeiro de 1890.
Em São Paulo, o casal teve mais seis filhos: Artur Augusto, Sara Augusta, Olympia Augusta, Alberto Augusto, Arnaldo Augusto e Coríntia Augusta.
Com o advento da época áurea da borracha na Amazônia, meu avô, como bom português chegado a aventuras, não pensou duas vezes: pegou toda a família e depois de uma longa viagem de navio, chegou à pequena, porém linda cidade de Manaus, onde corria muito dinheiro. Ele foi para Manaus por indicação de um amigo o qual tinha ido para lá e prosperado rapidamente.
A mamãe contava que a viagem tinha sido muito difícil e quase naufragaram devido a uma grande tempestade. Ao chegarem a Belém - cidade em que o navio fez uma das escalas - no início do século XX, meu avô e a mamãe desembarcaram para comprar roupas e sapatos para todos, porque os passageiros haviam perdido suas bagagens, as quais haviam sido jogadas ao mar. A vovó ficou a bordo com as seis crianças.
Para compensar este momento de aflição, a família chegou à linda capital amazonense com o ‘pé direito’, pois em pouco tempo de árduo trabalho, meu avô tornou-se um grande comerciante. Para isso, contou com a competente e eficiente ajuda de minha avó, a qual montou um restaurante que rápido tornou-se conhecido, não só pelo fino cardápio como também pelo excelente paladar.
Em 29 de setembro de 1925, dia de São Miguel Arcanjo, quando fui batizada. Na foto, minha irmã Leonor Florinda e eu, sentada, com menos de um ano.
Família ainda incompleta: minha mãe e meu pai - Florinda Augusta e Emílio - e meus irmãos - Natércia Hermínia, Fernanda Maria e Reynaldo Emílio.
Em 20 de março de 1931, véspera do falecimento da minha avó. Foto tirada pelo meu irmão Reynaldo Emílio.

2 comentários:

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  2. Querida D. Normélia, já tinha ouvido parte desta história, agora magnificamente registrada aqui. É um prazer ler suas reminiscências tão bem relatadas como merecem (aliás, não poderia ser diferente, vindo da mente brilhante e alma generosa que gerou minha amiga de coração..:-)))!

    Parabéns pela iniciativa, espero que continue a nos brindar com suas memórias que são tão diversificadas quanto ricas em lições e emoções. Aproveito o ensejo para lhe desejar um esplêndido 2013, votos extensivos a todos os familiares e amigos!

    Amplexos & ósculos,
    Carmen

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