Meus avós maternos, José Augusto e Maria de Jesus (Mariquinhas), gostavam muito de teatro e
óperas, que freqüentavam assiduamente no belo Teatro Amazonas, onde
eram contratadas as melhores companhias da Europa. Minha mãe, por
ser a filha mais velha, também os acompanhava.
Eles só vestiam, além dos chapéus e luvas, roupas da melhor
qualidade e sapatos Bostok. Tudo importado do velho mundo como peças preciosas de
Paris, Alemanha e Londres. Na época, vivia-se a famosa Belle
Époque.
Em 1906, meus avós voltaram
de férias a sua pátria, onde foram buscar sua filha Deolinda e
ainda rever os três filhos rapazes que, depois de estudarem em São
Paulo e Manaus, foram para um colégio interno em Lisboa. Lá, meus
avós alugaram uma casa e, com a família completa, planejaram passar
uma temporada boa, tranqüila e feliz. Vã ilusão!
Naquele momento de extrema felicidade
para eles, surgiu na cidade uma epidemia de varíola, a qual em pouco
tempo levou para sempre duas de suas pequenas filhas paulistanas:
Sara Augusta - que das duas era a mais velha, com 5 anos, e teve uma morte
angelical, cantando e rezando - e Olímpya Augusta.
Os três rapazes também adoeceram,
mas como eram maiores e mais fortes conseguiram salvar-se, apesar de
terem ficado com os rostos marcados para sempre. Eu os conheci assim.
Meus avós, minha mãe e a tia Quimquim (Coríntia) não
tiveram a doença. Passada a "tempestade", a vida continuou.
Logo depois, o meu avô encontrou um
amigo que não via há anos e o convidou para jantar em sua casa,
assim como o amigo que o acompanhava no momento.
Aqui, começa outra história com ‘h’
maiúsculo. O amigo do amigo do meu avô perguntou se poderia
levar em sua companhia seu filho, que estudava em um colégio interno
em Lisboa, mas dormia no hotel junto com o pai sempre que ele estava na cidade a negócios.
O pedido foi atendido e dias depois
foram todos jantar com a família Viégas. Quando os convidados
saíram, a charmosa mocinha, filha mais velha dos anfitriões foi
chamada e recriminada pelos olhares e sorrisos trocados com o bonito
rapaz visitante e especialmente pela resposta ousada e em tom de
brincadeira que ela deu ao pai dele. “A menina gostaria de ser minha nora?”, perguntou o sr. Emílio. “Gostaria,
sim”, respondeu a mocinha.
A partir daí, sucederam-se os postais
com declarações de amor, flores e bombons que minha mãe não tinha
permissão para responder. Até que aquele que seria meu avô
paterno tomou a iniciativa e pediu por escrito para conversar com o
meu avô materno. Depois da conversa, veio a licença para o namoro
que durou pouco, pois teve de ser interrompido pela viagem de trem de
minha mãe e toda a família por Portugal e outros países da Europa,
a qual já havia sido programada.
Entretanto, essa não foi a etapa mais
difícil para meus avós, e sim a de ir à aldeia, onde se encontrava
a filha, já mocinha, Deolinda – a querida tia Lhalinda –, que
nem conheciam mais. Não foi fácil realizar essa missão, porque tanto a "mãe" postiça quanto a "filha" se adoravam, mas esta é outra história.
Quando a família voltou a Lisboa, depois de
uma viagem maravilhosa e inesquecível, já estavam com data marcada
para retornar à Manaus. Claro que nos navios ingleses que tinham
viagens quinzenais para o extremo norte do Brasil. Sendo assim, os
jovens namorados (meus futuros pais) tiveram pouco tempo para trocar
juras de amor.
Meu pai estava terminando o ginásio e
não conseguia esquecer a namorada “brasileira” e por isso
escreveu a um de seus cunhados, cujo sobrenome era Caçapo,
farmacêutico e casado com a tia Aurora. Ele era dono de uma farmácia
em Manaus e estavam em ótima situação financeira.
A prova disso é que Caçapo
periodicamente visitava a família em Lisboa que vivia em excelentes
condições. O cunhado era formado em
Coimbra. Na época e, ainda durante muitos anos, os farmacêuticos
medicavam os pacientes para quem vendiam os remédios e isso era
lícito, porque não havia leis que regulamentassem esse tipo de
comércio.
Quando a família soube que o meu pai estava disposto a ir ao encontro da namorada, ficou
revoltada, especialmente porque a irmã e a sobrinha do meu pai
permaneciam em Portugal. Elas tinham medo de enfrentar as surpresas e
desconfortos do "Novo Mundo". Foi pena não terem tido coragem de
ir para Manaus. Ele voltou várias vezes a Portugal, mas só de
visita. Morar, nunca mais!
Meu tio Caçapo em uma de suas viagens
pelo interior do Amazonas, onde certamente ia vender seus
produtos farmacêuticos, parece que contraiu febre amarela ou
malária, motivo que o levou ao óbito. Ele foi enterrado no primeiro
barranco que apareceu.
Não sei exatamente se ele ajudou
financeiramente o meu pai a vir ao Brasil. A única coisa que sei é
que sua mãe ao se despedir, entregou-lhe uma grande quantia em
dinheiro para que ele não tivesse dificuldades.
Creio que entre a tia Aurora e o
marido, certamente o amor não era dos maiores, ao contrário dos
meus pais, pois sempre ouvia que o principal motivo do papai ter
vindo para o Brasil foi a paixão que sentia pela mamãe. Mas
acredito também que a desilusão por não ter seguido a carreira
militar o ajudou bastante a tomar essa decisão.
Ele contava que tinha obtido
excelentes notas em todas as provas, as quais fora submetido, mas foi
reprovado no exame médico porque media apenas um centímetro de
altura a menos do mínimo exigido. Somente anos mais tarde é que ele
descobriu a verdade. O presidente da junta médica que o examinou era
um primo da vovó que, por pedido seu, incapacitou o filho, pretendente a carreira militar. A vovó tinha lá
suas razões sentimentais e egoístas. E se pecou, com certeza, foi
por amor.
Naquela época, os jovens oficiais
para serem promovidos precisavam passar pelo menos dois anos nas
colônias portuguesas na África e isso ela não conseguia admitir.
Ela pensava que não suportaria vê-lo viver tão longe de tudo e de
todos.
Por outro lado, meu avô não se dava
bem com o meu pai, a começar pelas constantes e inúmeras
infidelidades dele com a minha avó, por quem meu pai tinha um enorme
amor.
Amor que não o impediu de desembarcar
em terras brasileiras. Quando chegou a Manaus, meu pai foi trabalhar
na farmácia do seu cunhado com quem passou a morar, mas não por
muito tempo, porque logo depois, no dia 29 de abril de 1908 casou-se
com a mamãe. Três dias depois o casal já estava a bordo do Hilary,
um dos navios ingleses que de 15 em 15 dias unia a Europa ao extremo
norte do Brasil. O navio costumava sair de Liverpool (Inglaterra),
parando em Leixões, Lisboa e Ilha da Madeira, em Portugal e Belém e
Manaus, no Brasil. Em Loriga, na Serra da Estrela, residiram por pouco mais de dois anos e tiveram seu primogênito, Reynaldo Emílio.
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| Postal enviado pelo meu pai recém-chegado em Manaus a minha mãe. |
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| Hábitos e costumes do longínquo ano de 1907. |
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| Felicitações do meu pai pelo aniversário da minha mãe no ano de 1911, em Lisboa. |
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| Postal de boas festas enviado a minha mãe pela minha avó paterna, Hermínia Freire. |




Querida D. Normélia,
ResponderExcluirReiterando o que afirmei no comentário da primeira história, adorei seu minucioso relato! Continue nos brindando com a sua história tão bem contada!
Abraços mil,
Carmen