sábado, 10 de novembro de 2012

Provas de Amor


Meus avós maternos, José Augusto e Maria de Jesus (Mariquinhas), gostavam muito de teatro e óperas, que freqüentavam assiduamente no belo Teatro Amazonas, onde eram contratadas as melhores companhias da Europa. Minha mãe, por ser a filha mais velha, também os acompanhava.
Eles só vestiam, além dos chapéus e luvas, roupas da melhor qualidade e sapatos   Bostok. Tudo importado do velho mundo como peças preciosas de Paris, Alemanha e Londres. Na época, vivia-se a famosa Belle Époque.
Em 1906, meus avós voltaram de férias a sua pátria, onde foram buscar sua filha Deolinda e ainda rever os três filhos rapazes que, depois de estudarem em São Paulo e Manaus, foram para um colégio interno em Lisboa. Lá, meus avós alugaram uma casa e, com a família completa, planejaram passar uma temporada boa, tranqüila e feliz. Vã ilusão!
Naquele momento de extrema felicidade para eles, surgiu na cidade uma epidemia de varíola, a qual em pouco tempo levou para sempre duas de suas pequenas filhas paulistanas: Sara Augusta - que das duas era a mais velha, com 5 anos, e teve uma morte angelical, cantando e rezando - e Olímpya Augusta.
Os três rapazes também adoeceram, mas como eram maiores e mais fortes conseguiram salvar-se, apesar de terem ficado com os rostos marcados para sempre. Eu os conheci assim. Meus avós, minha mãe e a tia Quimquim (Coríntia) não tiveram a doença. Passada a "tempestade", a vida continuou.
Logo depois, o meu avô encontrou um amigo que não via há anos e o convidou para jantar em sua casa, assim como o amigo que o acompanhava no momento.
Aqui, começa outra história com ‘h’ maiúsculo. O amigo do amigo do meu avô perguntou se poderia levar em sua companhia seu filho, que estudava em um colégio interno em Lisboa, mas dormia no hotel junto com o pai sempre que ele estava na cidade a negócios.
O pedido foi atendido e dias depois foram todos jantar com a família Viégas. Quando os convidados saíram, a charmosa mocinha, filha mais velha dos anfitriões foi chamada e recriminada pelos olhares e sorrisos trocados com o bonito rapaz visitante e especialmente pela resposta ousada e em tom de brincadeira que ela deu ao pai dele. “A menina gostaria de ser minha nora?”, perguntou o sr. Emílio. “Gostaria, sim”, respondeu a mocinha.
A partir daí, sucederam-se os postais com declarações de amor, flores e bombons que minha mãe não tinha permissão para responder. Até que aquele que seria meu avô paterno tomou a iniciativa e pediu por escrito para conversar com o meu avô materno. Depois da conversa, veio a licença para o namoro que durou pouco, pois teve de ser interrompido pela viagem de trem de minha mãe e toda a família por Portugal e outros países da Europa, a qual já havia sido programada.
Entretanto, essa não foi a etapa mais difícil para meus avós, e sim a de ir à aldeia, onde se encontrava a filha, já mocinha, Deolinda – a querida tia Lhalinda –, que nem conheciam mais. Não foi fácil realizar essa missão, porque tanto a "mãe" postiça quanto a "filha" se adoravam, mas esta é outra história.
Quando a família voltou a Lisboa, depois de uma viagem maravilhosa e inesquecível, já estavam com data marcada para retornar à Manaus. Claro que nos navios ingleses que tinham viagens quinzenais para o extremo norte do Brasil. Sendo assim, os jovens namorados (meus futuros pais) tiveram pouco tempo para trocar juras de amor.
Meu pai estava terminando o ginásio e não conseguia esquecer a namorada “brasileira” e por isso escreveu a um de seus cunhados, cujo sobrenome era Caçapo, farmacêutico e casado com a tia Aurora. Ele era dono de uma farmácia em Manaus e estavam em ótima situação financeira.
A prova disso é que Caçapo periodicamente visitava a família em Lisboa que vivia em excelentes condições. O cunhado era formado em Coimbra. Na época e, ainda durante muitos anos, os farmacêuticos medicavam os pacientes para quem vendiam os remédios e isso era lícito, porque não havia leis que regulamentassem esse tipo de comércio.
Quando a família soube que o meu pai estava disposto a ir ao encontro da namorada, ficou revoltada, especialmente porque a irmã e a sobrinha do meu pai permaneciam em Portugal. Elas tinham medo de enfrentar as surpresas e desconfortos do "Novo Mundo". Foi pena não terem tido coragem de ir para Manaus. Ele voltou várias vezes a Portugal, mas só de visita. Morar, nunca mais!
Meu tio Caçapo em uma de suas viagens pelo interior do Amazonas, onde certamente ia vender seus produtos farmacêuticos, parece que contraiu febre amarela ou malária, motivo que o levou ao óbito. Ele foi enterrado no primeiro barranco que apareceu.
Não sei exatamente se ele ajudou financeiramente o meu pai a vir ao Brasil. A única coisa que sei é que sua mãe ao se despedir, entregou-lhe uma grande quantia em dinheiro para que ele não tivesse dificuldades.
Creio que entre a tia Aurora e o marido, certamente o amor não era dos maiores, ao contrário dos meus pais, pois sempre ouvia que o principal motivo do papai ter vindo para o Brasil foi a paixão que sentia pela mamãe. Mas acredito também que a desilusão por não ter seguido a carreira militar o ajudou bastante a tomar essa decisão.
Ele contava que tinha obtido excelentes notas em todas as provas, as quais fora submetido, mas foi reprovado no exame médico porque media apenas um centímetro de altura a menos do mínimo exigido. Somente anos mais tarde é que ele descobriu a verdade. O presidente da junta médica que o examinou era um primo da vovó que, por pedido seu, incapacitou o filho, pretendente a carreira militar. A vovó tinha lá suas razões sentimentais e egoístas. E se pecou, com certeza, foi por amor.
Naquela época, os jovens oficiais para serem promovidos precisavam passar pelo menos dois anos nas colônias portuguesas na África e isso ela não conseguia admitir. Ela pensava que não suportaria vê-lo viver tão longe de tudo e de todos.
Por outro lado, meu avô não se dava bem com o meu pai, a começar pelas constantes e inúmeras infidelidades dele com a minha avó, por quem meu pai tinha um enorme amor.
Amor que não o impediu de desembarcar em terras brasileiras. Quando chegou a Manaus, meu pai foi trabalhar na farmácia do seu cunhado com quem passou a morar, mas não por muito tempo, porque logo depois, no dia 29 de abril de 1908 casou-se com a mamãe. Três dias depois o casal já estava a bordo do Hilary, um dos navios ingleses que de 15 em 15 dias unia a Europa ao extremo norte do Brasil. O navio costumava sair de Liverpool (Inglaterra), parando em Leixões, Lisboa e Ilha da Madeira, em Portugal e Belém e Manaus, no Brasil. Em Loriga, na Serra da Estrela, residiram por pouco mais de dois anos e tiveram seu primogênito, Reynaldo Emílio.

Postal enviado pelo meu pai recém-chegado em Manaus a minha mãe.
Hábitos e costumes do longínquo ano de 1907. 
Felicitações do meu pai pelo aniversário da minha mãe no ano de 1911, em Lisboa.
Postal de boas festas enviado a minha mãe pela minha avó paterna, Hermínia Freire.

Um comentário:

  1. Querida D. Normélia,

    Reiterando o que afirmei no comentário da primeira história, adorei seu minucioso relato! Continue nos brindando com a sua história tão bem contada!

    Abraços mil,
    Carmen

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