Nasci
em Manaus, que aos meus olhos é a cidade mais linda do mundo,
exatamente às 22h30, do dia 31 de outubro de 1924. Uma sexta-feira.
E por ter sido nesse dia da semana, com certeza, já vim predestinada
a ser alegre, festeira, comunicativa e com muita vontade de
aproveitar o lado bom da vida.
Cheguei
ao mundo na casa dos meus queridos pais, Emílio Freire Mendes dos
Reis e Florinda Augusta de Albuquerque Viégas - que depois de casada
acrescentou o Freire Mendes dos Reis -, ambos portugueses que na
época tinham, respectivamente, 41 e 36 anos. Eles estavam felizes da
vida por ganharem mais uma menina, a quarta, do total de cinco
filhos.
Morávamos
na Rua Dr. Jorge de Moraes, nº 3, em Manaus, que anos depois mudou
de nome e número, passando a se chamar Rua Rui Barbosa, nº 31. A
casa, para mim tão querida, ainda existe, porém foi modificada
internamente ao longo dos anos.
Naqueles
tempos, oitenta e tantos anos atrás, não era costume a mulher ter
filhos no hospital. Penso que até nem existiam maternidades
propriamente ditas. Os partos eram feitos em casa e, quase sempre,
por parteiras, a maioria delas verdadeiras curiosas que ajudavam as
crianças a virem ao mundo. Quando o parto era difícil, as mães
mais humildes iam à Santa Casa de Misericórdia e as protegidas da
sorte para a Beneficente Portuguesa, em busca de um atendimento mais
eficiente.
Meu
pai, Emílio, nasceu no dia 21 de fevereiro de 1883, na pequena Vila
de Loriga, encravada em um vale da Serra da Estrela, em Portugal, no
seio de uma família abastada que pelo lado materno tem o título de
nobreza (Freire).
Ele
foi o único filho varão do casal. Seu pai chamava-se Emílio Mendes
dos Reis e era um dos dois ‘donos’ da Vila. Era proprietário de
várias fábricas de lã, até hoje existentes, cuja matéria-prima
natural vinha de seu numeroso rebanho de ovinos.
Era um homem muito
bonito, culto, elegante, educado, poliglota, viajado e,
principalmente, muito conquistador, tanto que fora do matrimônio
teve ‘apenas’ 48 filhos, a quem dava assistência, mas não
o seu sobrenome.
Minha avó paterna se
chamava Maria Hermínia Freire Mendes dos Reis e era prima de
primeiro grau do meu avô. Ela teve educação esmerada e a perfeita
instrução que se dava às mulheres naquela época, isto é, falava
francês, pintava, bordava e tocava piano. Seu desejo era ser
religiosa, mas precisou mudá-lo para obedecer ao pai que resolveu
unir as fortunas dele e do irmão, casando os dois primos. A boda foi
realizada e dessa união nasceram seis filhos. Creio que entre eles
nunca existiu o amor de verdade.
O meu pai era o filho
caçula do casal e, por isso foi muito paparicado. Era carinhosamente
chamado de senhor Emilinho. Até os 11 anos, ele, juntamente com suas
irmãs, estudou em casa com professores que vinham da capital e de
fora do país, os quais passavam a residir com a família. Aprenderam
de tudo, inclusive boas maneiras, música, ginástica, dança,
pintura e francês, que era o idioma predominante na época.
Aos 12 anos meu pai
passou a estudar em um colégio interno, em Lisboa, mas só se
conformou em morar longe quando conseguiu, por meio do meu avô,
licença do colégio para que seu cachorro de estimação o
acompanhasse.
O Sr Emilinho estava
destinado a assumir no futuro os negócios da família. Porém, isso
não estava escrito e seu caminho foi outro. Aos 22 anos conheceu
minha mãe e os planos da família precisaram ser modificados.
Minha mãe, Florinda
Augusta de Albuquerque Viégas, nasceu em Lisboa, a encantadora
capital de Portugal, em 3 de novembro de 1888. Aos 2 anos de idade
viajou para o Brasil com seus pais, onde morou até os 14 anos na
cidade de São Paulo. Ela estudou por oito anos no colégio São José
que era dirigido por religiosas franco-italianas. Esse colégio, se
não me engano, até hoje existe no bairro da Glória.
Lembro que em janeiro de
1946 minha mãe teve a felicidade de voltar a visitar o seu antigo
colégio, claro que totalmente diferente em todos os sentidos, mas
ainda dirigido pela mesma congregação religiosa. A emoção foi
imensa, especialmente porque também encontrou uma antiga mestra (não
me recordo o nome dela), já bem idosa de aparência saudável que
andava e falava bem, mesmo com lapsos de memória.
Durante o reencontro, as
duas se abraçaram e essa foi uma das poucas vezes que eu vi a mamãe
chorar. Foi um momento fugaz, porém inesquecível. As freiras
francesas e italianas professoras da mamãe proporcionaram-lhe
sólidos conhecimentos que acrescidos a uma grande inteligência,
fabulosa memória, gosto ininterrupto e amor profundo pela boa
leitura, transformaram-se em uma enorme cultura que persistiu até os
90 anos. Até seus últimos dias, conseguia, com muito carinho,
lembrar e ler em francês e italiano, idiomas aprendidos na infância
e adolescência.
Meu avô materno
chamava-se José Augusto de Albuquerque Viégas. Era Português e
tinha um tipo fino, louro de olhos bem azuis. Eu não sei exatamente
quando e em que cidade nasceu, mas a mamãe contava que ele era bem
mais velho que a vovó, gênio calmo e ponderado. Creio que nem de
longe teve as aventuras do meu galante avô paterno e, se deu algumas
“fugidas”, foram rápidas e sem conseqüências, porque a vovó
não hesitava em fazê-lo voltar ao bom caminho.
Os meus avôs maternos
foram emigrantes autênticos, porque vieram para o ‘novo mundo’
em busca de fortuna. Minha mãe contava que seu pai havia tomado essa
decisão, porque se sentira lesado por um irmão e sua própria mãe
na divisão da herança de seu pai e, como não queria represálias,
especialmente com sua genitora, largou tudo e veio para o Brasil. Em
São Paulo, ele trabalhou na administração da estrada de ferro.
Minha
avó materna chamava-se Maria de Jesus Ferreira Viégas, nasceu no
dia no dia 1 de janeiro de 1864, em Portugal (não sei em que
cidade). Ela era alta e forte e foi a única avó que tive a sorte de
conhecer.
Quando os meus avôs
maternos foram para São Paulo, em 1890, trouxeram a minha mãe
Florinda com menos de 2 anos de idade e deixaram, em Portugal, a
outra filha, Deolinda Augusta, que havia nascido em 6 de janeiro de
1890.
Em São Paulo, o casal
teve mais seis filhos: Artur Augusto, Sara Augusta, Olympia Augusta,
Alberto Augusto, Arnaldo Augusto e Coríntia Augusta.
Com o advento da época
áurea da borracha na Amazônia, meu avô, como bom português
chegado a aventuras, não pensou duas vezes: pegou toda a família e
depois de uma longa viagem de navio, chegou à pequena, porém linda
cidade de Manaus, onde corria muito dinheiro. Ele foi para Manaus por
indicação de um amigo o qual tinha ido para lá e prosperado
rapidamente.
A mamãe contava que a
viagem tinha sido muito difícil e quase naufragaram devido a uma
grande tempestade. Ao chegarem a Belém - cidade em que o navio fez
uma das escalas - no início do século XX, meu avô e a mamãe
desembarcaram para comprar roupas e sapatos para todos, porque os
passageiros haviam perdido suas bagagens, as quais haviam sido
jogadas ao mar. A vovó ficou a bordo com as seis crianças.
Para compensar este
momento de aflição, a família chegou à linda capital amazonense
com o ‘pé direito’, pois em pouco tempo de árduo trabalho, meu
avô tornou-se um grande comerciante. Para isso, contou com a
competente e eficiente ajuda de minha avó, a qual montou um
restaurante que rápido tornou-se conhecido, não só pelo fino
cardápio como também pelo excelente paladar.
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| Em 29 de setembro de 1925, dia de São Miguel Arcanjo, quando fui batizada. Na foto, minha irmã Leonor Florinda e eu, sentada, com menos de um ano. |
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Família ainda incompleta: minha mãe e meu pai - Florinda Augusta e Emílio - e meus irmãos - Natércia Hermínia, Fernanda Maria e Reynaldo Emílio.
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| Em 20 de março de 1931, véspera do falecimento da minha avó. Foto tirada pelo meu irmão Reynaldo Emílio. |