domingo, 11 de novembro de 2012

Alegrias renovadas

     Chegar aos 88 anos de idade é, de fato, uma bênção de Deus, pelo que muito agradeço! A festa que meus filhos organizaram mais ou menos na surdina foi linda. Tão linda que nem de longe imaginava. É que eles sabem muito bem que eu sempre fui festeira, o que, aliás, se explica pelo fato de eu ter nascido em uma sexta-feira às 22 horas justamente na hora propícia de sair para se divertir...
     Ver-me cercada pelos familiares e amigos mais queridos encheu-me de alegria mesmo porque, para ser franca, desde a mais tenra idade fui acostumada a festejar o meu aniversário... Minha mãe, que também era festeira, sempre organizava audições de piano, violino, dança e declamações de poesia. As atrizes: minhas irmãs, primas e eu.

A lembrança desta noite ficou gravada nas bonitas fotos gentilmente feitas pelo amigo Lauro Alves.


Contemplando os quilômetros da minha estrada traduzidos nas velas do bolo-presente feito pela grande amiga Helena Alves. 
Eu entre meus queridos filhos, Márcia Rosana e Roberto.
Rodeada pela família do meu primogênito Roberto (Carlliane, Maurício, Manuela, Roberta, eu, Roberto, Cléa, Vitor Reinaldo, Mário, Flávia e Sandra).
Eu e a família da minha filha Márcia Rosana (Jamile, Márcia Rosana, eu, Márcio, Júlia e Sabrina).
Eu e as queridas Eliane, Márcia Rosana, Roberta, Sandra (minha primeira nora) e Cléa (lembrança viva do meu inesquecível filho José Ricardo).

Meu sempre querido médico e amigo Jorge Tuma, sua esposa Dina e filho Caio, aos quais muito estimo. Só faltou a querida Carol.
Minhas amigas: por intermédio delas aprendi a ser feliz com o que me sobrou. 



sábado, 10 de novembro de 2012

Provas de Amor


Meus avós maternos, José Augusto e Maria de Jesus (Mariquinhas), gostavam muito de teatro e óperas, que freqüentavam assiduamente no belo Teatro Amazonas, onde eram contratadas as melhores companhias da Europa. Minha mãe, por ser a filha mais velha, também os acompanhava.
Eles só vestiam, além dos chapéus e luvas, roupas da melhor qualidade e sapatos   Bostok. Tudo importado do velho mundo como peças preciosas de Paris, Alemanha e Londres. Na época, vivia-se a famosa Belle Époque.
Em 1906, meus avós voltaram de férias a sua pátria, onde foram buscar sua filha Deolinda e ainda rever os três filhos rapazes que, depois de estudarem em São Paulo e Manaus, foram para um colégio interno em Lisboa. Lá, meus avós alugaram uma casa e, com a família completa, planejaram passar uma temporada boa, tranqüila e feliz. Vã ilusão!
Naquele momento de extrema felicidade para eles, surgiu na cidade uma epidemia de varíola, a qual em pouco tempo levou para sempre duas de suas pequenas filhas paulistanas: Sara Augusta - que das duas era a mais velha, com 5 anos, e teve uma morte angelical, cantando e rezando - e Olímpya Augusta.
Os três rapazes também adoeceram, mas como eram maiores e mais fortes conseguiram salvar-se, apesar de terem ficado com os rostos marcados para sempre. Eu os conheci assim. Meus avós, minha mãe e a tia Quimquim (Coríntia) não tiveram a doença. Passada a "tempestade", a vida continuou.
Logo depois, o meu avô encontrou um amigo que não via há anos e o convidou para jantar em sua casa, assim como o amigo que o acompanhava no momento.
Aqui, começa outra história com ‘h’ maiúsculo. O amigo do amigo do meu avô perguntou se poderia levar em sua companhia seu filho, que estudava em um colégio interno em Lisboa, mas dormia no hotel junto com o pai sempre que ele estava na cidade a negócios.
O pedido foi atendido e dias depois foram todos jantar com a família Viégas. Quando os convidados saíram, a charmosa mocinha, filha mais velha dos anfitriões foi chamada e recriminada pelos olhares e sorrisos trocados com o bonito rapaz visitante e especialmente pela resposta ousada e em tom de brincadeira que ela deu ao pai dele. “A menina gostaria de ser minha nora?”, perguntou o sr. Emílio. “Gostaria, sim”, respondeu a mocinha.
A partir daí, sucederam-se os postais com declarações de amor, flores e bombons que minha mãe não tinha permissão para responder. Até que aquele que seria meu avô paterno tomou a iniciativa e pediu por escrito para conversar com o meu avô materno. Depois da conversa, veio a licença para o namoro que durou pouco, pois teve de ser interrompido pela viagem de trem de minha mãe e toda a família por Portugal e outros países da Europa, a qual já havia sido programada.
Entretanto, essa não foi a etapa mais difícil para meus avós, e sim a de ir à aldeia, onde se encontrava a filha, já mocinha, Deolinda – a querida tia Lhalinda –, que nem conheciam mais. Não foi fácil realizar essa missão, porque tanto a "mãe" postiça quanto a "filha" se adoravam, mas esta é outra história.
Quando a família voltou a Lisboa, depois de uma viagem maravilhosa e inesquecível, já estavam com data marcada para retornar à Manaus. Claro que nos navios ingleses que tinham viagens quinzenais para o extremo norte do Brasil. Sendo assim, os jovens namorados (meus futuros pais) tiveram pouco tempo para trocar juras de amor.
Meu pai estava terminando o ginásio e não conseguia esquecer a namorada “brasileira” e por isso escreveu a um de seus cunhados, cujo sobrenome era Caçapo, farmacêutico e casado com a tia Aurora. Ele era dono de uma farmácia em Manaus e estavam em ótima situação financeira.
A prova disso é que Caçapo periodicamente visitava a família em Lisboa que vivia em excelentes condições. O cunhado era formado em Coimbra. Na época e, ainda durante muitos anos, os farmacêuticos medicavam os pacientes para quem vendiam os remédios e isso era lícito, porque não havia leis que regulamentassem esse tipo de comércio.
Quando a família soube que o meu pai estava disposto a ir ao encontro da namorada, ficou revoltada, especialmente porque a irmã e a sobrinha do meu pai permaneciam em Portugal. Elas tinham medo de enfrentar as surpresas e desconfortos do "Novo Mundo". Foi pena não terem tido coragem de ir para Manaus. Ele voltou várias vezes a Portugal, mas só de visita. Morar, nunca mais!
Meu tio Caçapo em uma de suas viagens pelo interior do Amazonas, onde certamente ia vender seus produtos farmacêuticos, parece que contraiu febre amarela ou malária, motivo que o levou ao óbito. Ele foi enterrado no primeiro barranco que apareceu.
Não sei exatamente se ele ajudou financeiramente o meu pai a vir ao Brasil. A única coisa que sei é que sua mãe ao se despedir, entregou-lhe uma grande quantia em dinheiro para que ele não tivesse dificuldades.
Creio que entre a tia Aurora e o marido, certamente o amor não era dos maiores, ao contrário dos meus pais, pois sempre ouvia que o principal motivo do papai ter vindo para o Brasil foi a paixão que sentia pela mamãe. Mas acredito também que a desilusão por não ter seguido a carreira militar o ajudou bastante a tomar essa decisão.
Ele contava que tinha obtido excelentes notas em todas as provas, as quais fora submetido, mas foi reprovado no exame médico porque media apenas um centímetro de altura a menos do mínimo exigido. Somente anos mais tarde é que ele descobriu a verdade. O presidente da junta médica que o examinou era um primo da vovó que, por pedido seu, incapacitou o filho, pretendente a carreira militar. A vovó tinha lá suas razões sentimentais e egoístas. E se pecou, com certeza, foi por amor.
Naquela época, os jovens oficiais para serem promovidos precisavam passar pelo menos dois anos nas colônias portuguesas na África e isso ela não conseguia admitir. Ela pensava que não suportaria vê-lo viver tão longe de tudo e de todos.
Por outro lado, meu avô não se dava bem com o meu pai, a começar pelas constantes e inúmeras infidelidades dele com a minha avó, por quem meu pai tinha um enorme amor.
Amor que não o impediu de desembarcar em terras brasileiras. Quando chegou a Manaus, meu pai foi trabalhar na farmácia do seu cunhado com quem passou a morar, mas não por muito tempo, porque logo depois, no dia 29 de abril de 1908 casou-se com a mamãe. Três dias depois o casal já estava a bordo do Hilary, um dos navios ingleses que de 15 em 15 dias unia a Europa ao extremo norte do Brasil. O navio costumava sair de Liverpool (Inglaterra), parando em Leixões, Lisboa e Ilha da Madeira, em Portugal e Belém e Manaus, no Brasil. Em Loriga, na Serra da Estrela, residiram por pouco mais de dois anos e tiveram seu primogênito, Reynaldo Emílio.

Postal enviado pelo meu pai recém-chegado em Manaus a minha mãe.
Hábitos e costumes do longínquo ano de 1907. 
Felicitações do meu pai pelo aniversário da minha mãe no ano de 1911, em Lisboa.
Postal de boas festas enviado a minha mãe pela minha avó paterna, Hermínia Freire.

sábado, 27 de outubro de 2012

Reminiscências

         Nasci em Manaus, que aos meus olhos é a cidade mais linda do mundo, exatamente às 22h30, do dia 31 de outubro de 1924. Uma sexta-feira. E por ter sido nesse dia da semana, com certeza, já vim predestinada a ser alegre, festeira, comunicativa e com muita vontade de aproveitar o lado bom da vida.
Cheguei ao mundo na casa dos meus queridos pais, Emílio Freire Mendes dos Reis e Florinda Augusta de Albuquerque Viégas - que depois de casada acrescentou o Freire Mendes dos Reis -, ambos portugueses que na época tinham, respectivamente, 41 e 36 anos. Eles estavam felizes da vida por ganharem mais uma menina, a quarta, do total de cinco filhos.
         Morávamos na Rua Dr. Jorge de Moraes, nº 3, em Manaus, que anos depois mudou de nome e número, passando a se chamar Rua Rui Barbosa, nº 31. A casa, para mim tão querida, ainda existe, porém foi modificada internamente ao longo dos anos.
         Naqueles tempos, oitenta e tantos anos atrás, não era costume a mulher ter filhos no hospital. Penso que até nem existiam maternidades propriamente ditas. Os partos eram feitos em casa e, quase sempre, por parteiras, a maioria delas verdadeiras curiosas que ajudavam as crianças a virem ao mundo. Quando o parto era difícil, as mães mais humildes iam à Santa Casa de Misericórdia e as protegidas da sorte para a Beneficente Portuguesa, em busca de um atendimento mais eficiente.
          Meu pai, Emílio, nasceu no dia 21 de fevereiro de 1883, na pequena Vila de Loriga, encravada em um vale da Serra da Estrela, em Portugal, no seio de uma família abastada que pelo lado materno tem o título de nobreza (Freire).
Ele foi o único filho varão do casal. Seu pai chamava-se Emílio Mendes dos Reis e era um dos dois ‘donos’ da Vila. Era proprietário de várias fábricas de lã, até hoje existentes, cuja matéria-prima natural vinha de seu numeroso rebanho de ovinos.
Era um homem muito bonito, culto, elegante, educado, poliglota, viajado e, principalmente, muito conquistador, tanto que fora do matrimônio teve ‘apenas’ 48 filhos, a quem dava assistência, mas não o seu sobrenome.
Minha avó paterna se chamava Maria Hermínia Freire Mendes dos Reis e era prima de primeiro grau do meu avô. Ela teve educação esmerada e a perfeita instrução que se dava às mulheres naquela época, isto é, falava francês, pintava, bordava e tocava piano. Seu desejo era ser religiosa, mas precisou mudá-lo para obedecer ao pai que resolveu unir as fortunas dele e do irmão, casando os dois primos. A boda foi realizada e dessa união nasceram seis filhos. Creio que entre eles nunca existiu o amor de verdade.
O meu pai era o filho caçula do casal e, por isso foi muito paparicado. Era carinhosamente chamado de senhor Emilinho. Até os 11 anos, ele, juntamente com suas irmãs, estudou em casa com professores que vinham da capital e de fora do país, os quais passavam a residir com a família. Aprenderam de tudo, inclusive boas maneiras, música, ginástica, dança, pintura e francês, que era o idioma predominante na época.
Aos 12 anos meu pai passou a estudar em um colégio interno, em Lisboa, mas só se conformou em morar longe quando conseguiu, por meio do meu avô, licença do colégio para que seu cachorro de estimação o acompanhasse.
O Sr Emilinho estava destinado a assumir no futuro os negócios da família. Porém, isso não estava escrito e seu caminho foi outro. Aos 22 anos conheceu minha mãe e os planos da família precisaram ser modificados.
Minha mãe, Florinda Augusta de Albuquerque Viégas, nasceu em Lisboa, a encantadora capital de Portugal, em 3 de novembro de 1888. Aos 2 anos de idade viajou para o Brasil com seus pais, onde morou até os 14 anos na cidade de São Paulo. Ela estudou por oito anos no colégio São José que era dirigido por religiosas franco-italianas. Esse colégio, se não me engano, até hoje existe no bairro da Glória.
Lembro que em janeiro de 1946 minha mãe teve a felicidade de voltar a visitar o seu antigo colégio, claro que totalmente diferente em todos os sentidos, mas ainda dirigido pela mesma congregação religiosa. A emoção foi imensa, especialmente porque também encontrou uma antiga mestra (não me recordo o nome dela), já bem idosa de aparência saudável que andava e falava bem, mesmo com lapsos de memória.
Durante o reencontro, as duas se abraçaram e essa foi uma das poucas vezes que eu vi a mamãe chorar. Foi um momento fugaz, porém inesquecível. As freiras francesas e italianas professoras da mamãe proporcionaram-lhe sólidos conhecimentos que acrescidos a uma grande inteligência, fabulosa memória, gosto ininterrupto e amor profundo pela boa leitura, transformaram-se em uma enorme cultura que persistiu até os 90 anos. Até seus últimos dias, conseguia, com muito carinho, lembrar e ler em francês e italiano, idiomas aprendidos na infância e adolescência.
Meu avô materno chamava-se José Augusto de Albuquerque Viégas. Era Português e tinha um tipo fino, louro de olhos bem azuis. Eu não sei exatamente quando e em que cidade nasceu, mas a mamãe contava que ele era bem mais velho que a vovó, gênio calmo e ponderado. Creio que nem de longe teve as aventuras do meu galante avô paterno e, se deu algumas “fugidas”, foram rápidas e sem conseqüências, porque a vovó não hesitava em fazê-lo voltar ao bom caminho.
Os meus avôs maternos foram emigrantes autênticos, porque vieram para o ‘novo mundo’ em busca de fortuna. Minha mãe contava que seu pai havia tomado essa decisão, porque se sentira lesado por um irmão e sua própria mãe na divisão da herança de seu pai e, como não queria represálias, especialmente com sua genitora, largou tudo e veio para o Brasil. Em São Paulo, ele trabalhou na administração da estrada de ferro.
         Minha avó materna chamava-se Maria de Jesus Ferreira Viégas, nasceu no dia no dia 1 de janeiro de 1864, em Portugal (não sei em que cidade). Ela era alta e forte e foi a única avó que tive a sorte de conhecer.
Quando os meus avôs maternos foram para São Paulo, em 1890, trouxeram a minha mãe Florinda com menos de 2 anos de idade e deixaram, em Portugal, a outra filha, Deolinda Augusta, que havia nascido em 6 de janeiro de 1890.
Em São Paulo, o casal teve mais seis filhos: Artur Augusto, Sara Augusta, Olympia Augusta, Alberto Augusto, Arnaldo Augusto e Coríntia Augusta.
Com o advento da época áurea da borracha na Amazônia, meu avô, como bom português chegado a aventuras, não pensou duas vezes: pegou toda a família e depois de uma longa viagem de navio, chegou à pequena, porém linda cidade de Manaus, onde corria muito dinheiro. Ele foi para Manaus por indicação de um amigo o qual tinha ido para lá e prosperado rapidamente.
A mamãe contava que a viagem tinha sido muito difícil e quase naufragaram devido a uma grande tempestade. Ao chegarem a Belém - cidade em que o navio fez uma das escalas - no início do século XX, meu avô e a mamãe desembarcaram para comprar roupas e sapatos para todos, porque os passageiros haviam perdido suas bagagens, as quais haviam sido jogadas ao mar. A vovó ficou a bordo com as seis crianças.
Para compensar este momento de aflição, a família chegou à linda capital amazonense com o ‘pé direito’, pois em pouco tempo de árduo trabalho, meu avô tornou-se um grande comerciante. Para isso, contou com a competente e eficiente ajuda de minha avó, a qual montou um restaurante que rápido tornou-se conhecido, não só pelo fino cardápio como também pelo excelente paladar.
Em 29 de setembro de 1925, dia de São Miguel Arcanjo, quando fui batizada. Na foto, minha irmã Leonor Florinda e eu, sentada, com menos de um ano.
Família ainda incompleta: minha mãe e meu pai - Florinda Augusta e Emílio - e meus irmãos - Natércia Hermínia, Fernanda Maria e Reynaldo Emílio.
Em 20 de março de 1931, véspera do falecimento da minha avó. Foto tirada pelo meu irmão Reynaldo Emílio.